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Ouvi de pessoas idosas, algumas histórias que julgando verdadeiras me motivaram à busca de elementos oficiais justificativos convicto de que terão base documental que as justifique, outras sei, que embora verídicas, apenas se podem basear no testemunho dos que as ouviram aos mais velhos não deixando mesmo assim de merecer o nosso credito.
Tentarei recordar aqui, aquelas que julgo não deverem ser esquecidas.
Disputas entre Alfaiates e o Soito
Tinha o mês de Maio acabado de nascer, a natureza acordava a vegetação adormecida durante o Inverno e o homem num afã de sobrevivência, desbravava e amanhava a terra lançando-lhe no ventre as sementes que iriam produzir o pão para seu sustento e de toda a família, porque à época a terra era o local de trabalho da grande maioria dos cidadãos e quase a única fonte de produtos alimentares.
As terras, na sua grande maioria hoje ao abandono ou em pousio, eram disputadas palmo a palmo e todos ansiavam e lutavam por um pedaço que lhe garantisse um futuro sem fome ainda que a custo de muito sacrifício, incluindo a própria vida.
As terras férteis contíguas aos limites fronteiriços do Soito e Alfaiates (Marsoba e Vilares) eram objecto de continuas disputas por parte dos habitantes de ambas as povoações que, ansiosos por possuírem ali como sua nem que fosse uma leira, discutiam frequentemente pela sua posse e das palavras bastas vezes passavam ao confronto físico com derramamento de sangue e perca de algumas vidas.
Eram cinco da tarde desse longínquo dia três de Maio de 1888, as discussões e mutuas provocações tinham ocupado uma boa parte do dia e antevia-se já uma acalmia, eis quando um jovem e robusto Soitense se dirige à Marsoba sem saber que seria a sua ultima viajem, pois ali é assassinado e rega com o seu próprio sangue a terra por que tantos dos seus compatriotas lutaram antes dele.
Foi preciso morrer, de um e de outro lado, para que as divergências entre os dois povos tivessem fim; a terra porque tantos se sacrificaram ali está, quase toda ao desleixo mas inalterável e alheia à ambição humana e ás dores e à violência de que foi causa.

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A atestar estes factos está o chamado Cruzeiro do Ti Dora que embora não tenha a data gravada, continua há 116 anos, (o facto aconteceu ás cinco da tarde do dia 3 de Maio de 1888) a perpetuar a memória de um cidadão de nome Manuel Lopes (Dora) que aos 28 anos foi vitima da intolerância motivada possivelmente pela miséria ou por uma premente necessidade, mas também o registo de óbito passado pelo Vigário Manuel Nunes Garcia a que no Arquivo Distrital da Guarda tive acesso e cuja cópia guardo como prova.
Também no sitio do Carriçal, situado nos limites entre as duas freguesias a nordeste do Soito houve disputas semelhantes e pelas mesma causas que causaram a morte a algumas pessoa envolvidas, foi o caso de um habitante de Alfaiates que ameaçara de morte os do Soito mas que se tornou ele próprio em vitima tendo sido morto por um habitante do Soito chamado o espanhol que dotado de uma força espantosa o arremessara vários metros como se com ele andasse a jogar à barra.
Parte destas histórias foram-me contadas pelo falecido "Ti João Rachado" que já as teria recebido oralmente dos mais velhos, eu aqui as deixo escritas para serem transmitidas ao futuro.
A propósito deve ser dito que no durante todo o século XIX houve imensas disputas territoriais entre o Soito e Alfaiates e que vários habitantes de um e outro povo perderam a vida lutando pela obtenção de um pedaço de terra, terra que hoje, em parte ao abandono, continua alheia às lutas que originou.
Os Gabrieis
Estávamos no princípio do século XX talvez 1904, quando esta família ou algum dos seus elementos mais notórios, quis impor ao povo e contra a sua vontade, um padre da família como pároco da freguesia; Tendo o apoio do Administrador do concelho, também familiar, julgavam os Gabrieis ter a força moral e legal para obrigar os paroquianos a ceder aos seus desejos ou interesses, mas depararam com a total oposição de um povo unido e decidido a lutar pelos seus princípios e direitos.
Não foi pacifico o desenvolvimento deste processo que dava argumento para um filme, pois a força do poder dos Gabrieis que se julgavam com direito a submeter os aldeões à sua vontade, não contava com a força da unidade popular de um povo que se revoltou ainda mais após aqueles terem usado a força militar, que facilmente requisitaram face à sua riqueza e posição social que desfrutavam.
Ao terem conhecimento da vinda dessas forças que julgavam repressivas, alguns populares subiram à torre e tocaram o sino a rebate para o povo se reunir e defender os seus direitos, foram então alvejados do que resultou a morte de duas mulheres, contudo, cientes da sua força não desanimaram e obrigaram a dita família a encetar a fuga para Alfaiates, de onde era oriunda.
Os militares, ao darem-se conta de que o objectivo da sua vinda não fora a manutenção da ordem, mas a imposição da vontade por parte de uma minoria, colocaram-se ao lado do povo.
Alguns populares, furiosos, dirigiram-se à casa de habitação dos fugitivos e despejaram na via publica todos os seus bens, móveis e alimentares.
A verdade é que o Padre não assumiu o cargo e o nome dos Gabrieis acabou por se extinguir da povoação.
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